sexta-feira, novembro 19, 2010

Chove lá fora...

Lisboa, segurança máxima. A capital do país de brandos costumes recebe até amanhã mais de 40 líderes mundiais para a Cimeira da Nato/Otan. Para ficar no centro da agenda internacional, Portugal mais uma vez empresta por dois dias os seus magníficos espaços, a presença de seus representantes e a paciência de seus cidadãos em nome da segurança dos povos, das ameaças ocultas, das missões de paz que nunca terminam e das novas estratégias que os nossos governantes estão sempre a planejar.

As comitivas não param de chegar e só Barack Obama traz mais de 900 pessoas. No Centro de Imprensa, tudo preparado para receber 2400 jornalistas. Lá dentro, a mais alta tecnologia, antenas poderosas, telões gigantes com avisos em todas as línguas e os jornalistas que andam para lá e para cá em busca das mais recentes conferências de imprensa, notícias e informações. Cá fora, revistas policiais, trânsito condicionado, avenidas interrompidas para a passagem dos que não podem perder tempo e o ponto facultativo, oferecido como brinde à população. Fiquem em casa e não atrapalhem - pareciam dizer os sinais para pedestres que desde ontem à noite acendiam e apagavam nas esquinas já quase vazias do velho centro histórico. Cercados pelas câmeras dos profissionais, políticos discursavam na Praça Camões e manifestantes deitavam nas calçadas fingindo de mortos, fazendo o seu momento de história, bem em frente aos postes de luz com caravelas penduradas num flash-mob nada programado. Descendo a ladeira, lá íamos nós apressados para não perder o horário do trem de volta pra casa.

Hoje, no Parque das Nações, na parte moderna da cidade, tudo irá acontecer em encontros marcados nas salas do enorme pavilhão. Na agenda, a nova estratégia para o Afeganistão, as relações com a Rússia e uma nova imagem para a Nato/Otan, palavras que leio e ouço repetidamente na TV. É aí que mora o perigo, penso, enquanto da minha janela observo como os adoradores de aviões, um enorme jato (Air Force One?) que cruza o espaço aéreo exclusivo. Eles estão chegando e elas também. Para as senhoras, programas especiais - visita ao Museu da Moda, almoço com copos de cristais e lindas porcelanas Vista Alegre e para as que não estão de dieta, deliciosos pastéis de Belém, símbolos da boa hospitalidade portuguesa. Do alto dos seus saltos, com certeza vão agradecer com amáveis sorrisos e um o-bri-ga-da!

Chove lá fora. Do outro lado do rio Tejo, enquanto escrevo, boa parte do mundo está reunido em busca de soluções. Continua a chover, mais forte agora - um bom dia para arrumar as gavetas com as roupas do inverno e um bom dia para que os senhores da guerra resolvam tirar de uma vez por todas, todos os esqueletos do armário num dos maiores desafios deste novo século. Lisboa, vontade máxima.

sábado, novembro 06, 2010

Café e pão com manteiga

Anúncio importante - pequeno-almoço é o mesmo que café-da-manhã? Esta dúvida acaba de ser resolvida para os muitos brasileiros que chegam por aqui e ainda no hotel têm de começar a entender as diferenças, os hábitos e o sotaque dos portugueses. Para todos, uma boa notícia que veio no jornal de hoje - a palavra café-da-manhã acaba de tirar o passaporte linguístico entrando para o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, editado desde 1792. Portanto, se um dia passar por Lisboa, nada de ficar em jejum até que uma voz amiga venha ajudar na tradução e, aí ou aqui, enfrente um brasileiríssimo café-da-manhã sem esquecer de deixar os tracinhos, as migalhas do pão torrado, entre um gole e outro de café.

domingo, outubro 31, 2010

Em Lisboa

17:05 - Dilma 49, José Serra 24, brancos 2, nulos 4. Mais rápida que o pensamento, a urna eletronica expeliu a listagem final do 2º turno. Nos números friamente impressos, a esperança da mulher grávida de gêmeos, a emoção do jovem e sua atenta mãe que votaram juntos pela primeira vez, a alegria do rapaz que entrou cantando baixinho na cabine, a confiança do eleitor que ao sair disse sorrindo para a mesa que esperava nos encontrar novamente daqui a quatro anos. Alguns dos personagens reais, brasileiros de verdade, que fizeram história na distante seção 156, em Lisboa.

quinta-feira, setembro 23, 2010

ELÉTRICO 28 E

O dia era para andar a pé pela cidade. Mas não resisti e na primeira curva do tempo apanhei o elétrico (bonde) 28E, com o logo da Coca-Cola estampado na carroceria, e embarquei nos solavancos da memória. Na primeira parada do sobe e desce das ladeiras de Lisboa, meu avô entrou com o seu terno de casimira e me pegou pela mão. Sem destino, subimos à caminho da Muda - a Cascatinha na Floresta da Tijuca me esperava com o seu verde exuberante, cheiro de mato e um belo bife com batatas fritas no restaurante com guardanapos de linho branco. Chiado, Rua da Conceição, Sé… No Largo da Carioca, Sta. Tereza me protege dos programas inesperados vendo a cidade de cima e a vida que rola nos trilhos do caminho - tlim, tlim, tlim registra o motorneiro pendurado no estribo. Solta-se o beijo. Miradouro de Sta. Luzia, Portas do Sol… as muralhas do Castelo de São Jorge defendem a tarde que teima em cair sobre o rio Tejo. Do outro lado do azul imenso, uma menina carioca anda no reboque do bonde até o Bar 20 - cinema Pirajá, a esquina do Bob’s, a janela da sala de aula, a areia fina e a praia ali tão perto. O mar chama e é chama de todos os desejos. Bairro da Graça, rua Forno dos Tijolos, Igreja dos Anjos… na Avenida Rio Branco esquina com México, ainda posso vê-los sempre que passo por ali - são os amigos da McCann e da conta que trabalhei por tanto tempo que me acenam. Será esse o bonde chamado felicidade?